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Jornalista, dramaturgo e político foi popular com comentários no rádio e na TV entre 1960 e 1980. Acervo Simone Jockymann / Divulgação / JC
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Parido a fórceps, Sergio Jockymann nasceu quase cego do olho
esquerdo. Mas isso não impediu que lesse muito com o direito. Absorvia
todos os livros que encontrava na biblioteca de Cruz Alta, a 336
quilômetros de Porto Alegre. Nascera em Palmeira das Missões, distante
quase 100 quilômetros, mas foi morar lá depois que o pai ganhou uma
farmácia numa partida de pôquer. Certo dia, pegou na biblioteca um
exemplar de 1919, de John dos Passos, e levou para casa.
O pai, um "alemão grosso", nas palavras do filho, não era muito da
leitura, mas conhecia o livro - "pornográfico" - e lhe deu uma surra.
Décadas depois, Jockymann ainda se lembraria da reação, que se repetiria
com outras leituras.
Durante toda a vida, jamais se submeteria de novo a alguém, mesmo
que isso trouxesse consequências. Há uma década, em 16 de fevereiro de
2011, morreu aos 80 anos como viveu: livre, até mesmo de Deus, pois era
ateu.
Ainda cedo, conseguiu independência dos pais, com os quais tinha
uma relação tumultuada. Começou a trabalhar na imprensa aos 19 anos e só
parou em 2006, pouco antes de morrer. Para a história, ficou seu bordão
- "Pensem nisso, enquanto lhes digo: até amanhã" - popularizado pelos
comentários no rádio e na TV entre as décadas de 1960 e 1980.
Mas sua vida foi mais que uma boa sacada. Teve muitas profissões:
jornalista, dramaturgo, escritor e político. Às vezes, foi tudo isso ao
mesmo tempo. Trabalhava muito. Em um mesmo dia, falava no rádio e na
televisão, escrevia para dois jornais, roteirizava novelas para a TV,
escrevia peças. Tudo o que fazia reverberava.
Conseguia dar conta de tantas atividades porque escrevia muito
rápido. "Teve uma vez que ele estava jogando pôquer com amigos e se deu
conta que precisava escrever um artigo para entregar no dia seguinte.
Foi ao gabinete, escreveu em 20 minutos e voltou a jogar", lembra a
esposa Simone. A fortaleza de Jockymann era sua casa, localizada no
Jardim Isabel, na Zona Sul de Porto Alegre, onde morou entre os anos
1970 e 1990. "Ele não tinha nada. Essa casa foi uma conquista", afirma a
filha Luelyn.
Trabalhando de casa - "o precursor do home office", segundo a
família - Jockymann saía pouco. Jantar fora ou ir ao cinema era fato
raro e festejado pela esposa e filhas. Preferia o seu gabinete, que fora
projetado por ele próprio, rodeado pela coisa que mais apreciava depois
da família: sua biblioteca pessoal, com 15 mil livros, que ocupavam
todas as paredes, do rodapé ao teto. Um deles era seu preferido: Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes.
A trajetória profissional de Jockymann sofreu um engasgo quando o
jornalista virou deputado estadual (1991-1994). Não conseguiu a
reeleição e ganhou inimizades na política. Esperava encontrar trabalho
na imprensa, mas isso também não aconteceu. No fim dos anos 1990, passou
a sofrer problemas renais que o acompanhariam até a morte.
Sempre quis viver de frente para o mar. Em 2000, vendeu sua casa em
Porto Alegre e foi morar com a esposa e a filha Karel em Garopaba (SC).
Voltaria à capital gaúcha apenas uma vez, em meados dos anos 2000, para
acompanhar gravações do filme Dias e noites, adaptação para o cinema de seu folhetim Clô Dias e noites.
Com o agravamento de seu quadro, passou a viver entre Santa Catarina e
Campinas, onde morava a filha Luelyn. O nascimento da neta, Aurora, em
2010, o animou. Aurora "foi o último amor da vida dele", segundo Simone.
Jockymann foi um dos homens mais produtivos de sua época. Deixou
cinco livros publicados e outros quatro inéditos, nove novelas para a
TV, pelo menos 5 mil crônicas e várias peças de teatro. Casou-se duas
vezes e teve seis filhos - quatro no primeiro casamento (Iria, Daphne,
Heliane e André) e duas no segundo (Luelyn e Karel). Realizou o sonho de
ter seu próprio jornal, o RS.
Faltou alcançar apenas uma ambição. "Ser Deus", diz Simone, aos
risos. "O sonho dele era ser Deus". O humorista Renato Pereira, amigo de
Jockymann desde os anos 1960, confirma: "Nós, amigos, éramos como os
acólitos do sacerdote".
Emocional por natureza, Jockymann despertava paixões nos seus
interlocutores. Ou era amado ou era odiado. Talvez por falar - e
escrever - muito, alguns o viam como uma pessoa arrogante.
Pagou por isso em determinado ponto da trajetória profissional, mas
jamais deixou sua liberdade de lado, até mesmo sob problemas graves de
saúde. No fim da vida, demorou a seguir o tratamento para os rins.
Até morrer, não havia falado na morte. Não deixou prescrições para
Luelyn, que o acompanhou no momento final, de como deveria ser seu
velório ou enterro. Não houve qualquer evento fúnebre.
Sergio Jockymann foi cremado e, cinco anos depois, a neta Aurora
jogou suas cinzas ao Guaíba. Porto Alegre finalmente o recebeu de volta.
De repórter a dono de jornal
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Sergio Jockymann em sua juventude, nos anos 1950
/ Arquivo pessoal Sérgio Jockymann / Divulgação / JC
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Como muitos, Sergio Jockymann começou na
imprensa como repórter, encontrando várias histórias inusitadas pelo
caminho. "Uma vez chamaram ele em Estância Velha. Um cara dizia ter
visto um disco voador com dois extraterrestres dentro. Meu pai chegou lá
meio com medo, o cara levou ele no porão e falou assim: 'Tu está vendo
eles?'. E ele respondeu: 'Sim, tô'. O cara disse: 'Tu tem certeza que tu
tá vendo?' e ele concordou. O cara disse: 'Tu é um mentiroso, eu vou te
matar agora porque eles só aparecem para mim'", conta Luelyn.
Na Última Hora, a partir de 1961, passou a assinar uma coluna chamada Boa tarde, Excelência,
em que criticava o governador Leonel Brizola. "Um dia o Samuel [Wainer,
dono do jornal] me chamou - estava dividido, era muito amigo do Brizola
- e me disse: Tenho que te contar a verdade: estão querendo tirar
dinheiro do Brizola e estão tentando te usar", relataria Jockymann, que
utilizava um pseudônimo, "Gato Preto" - seu animal preferido.
Passaria da crônica política para a
policial. Em 1963, o deputado estadual Euclides Kliemann foi assassinado
por um opositor enquanto participava de um programa de rádio em Santa
Cruz do Sul. No ano anterior, sua esposa, Margit, também fora
assassinada sob circunstâncias obscuras.
A proximidade dos episódios provocou
comoção e intriga em todo o Estado: as duas mortes teriam relação? Como
toda a imprensa, a Última Hora embarcou na cobertura dos casos
publicando novidades diárias. Para esquentar o noticiário, surgiu uma
nova e misteriosa personagem na narrativa dos jornais: a "dama de
vermelho", que estaria envolvida na morte de Margit e cuja existência
nunca foi comprovada.
Ao jornalista Celito De Grandi, que publicou Caso Kliemann: a história de uma tragédia
(Edunisc, 2010), Jockymann admitiu: "Nós mentimos muito nos jornais,
até que um dia eu parei para pensar e vi que o caso todo tinha sido
muito importante na minha vida. Passei a ter maior responsabilidade e me
arrependo, sinceramente, do que escrevi".
Depois desse episódio, Jockymann
colocaria sua criatividade a serviço das crônicas, entre a ironia e a
acidez. Ainda voltaria ao Diário de Notícias e passaria por Zero Hora,
onde um substituto seu, Luis Fernando Verissimo, começou a chamar a
atenção. Pois - era assim que Jockymann começava suas crônicas - passou a
escrever para a Folha da Manhã e Folha da Tarde, a partir de 1969.
Quando a Folha da Tarde capengava, em
1981, perdendo circulação e leitores, Jockymann foi convocado pelo
diretor do jornal, Walter Galvani, para escrever um folhetim para
levantar a publicação.
Clô Dias e noites apresentava Clotilde,
uma mulher oprimida pelo marido, situação ainda presente hoje e mais
frequente ainda em 1981, de forma que rapidamente se transformou em
sucesso. "Vi que a tiragem reagia à medida que a história, inteligente e
cheia de suspense, crescia", revelou Galvani no livro Olha a Folha (Sulina, 1995). No ano seguinte, o folhetim seria editado em livro pela L&PM.
Jockymann escreveu para a Folha até o
seu fim, em 1984. Após a falência da Caldas Júnior e a venda para o
empresário Renato Ribeiro, resolveu criar seu próprio jornal, RS - O
Jornal da Semana, que circulou entre 1986 e 1993. Confessou na primeira
edição: "Vocês têm nas mãos o mais velho sonho meu. Um sonho antigo e
teimoso, que levou 32 anos para se tornar realidade".
Arrevistado, o jornal trazia grandes
reportagens e colunistas egressos da Caldas Júnior. Ganhou repercussão
na cobertura do assassinato do deputado estadual José Antônio Daudt, em
1988, levantando hipóteses dissonantes da Polícia Civil e dos demais
veículos. Jockymann encerrou a carreira escrevendo para o Grupo Sinos,
entre 1996 e 2006, e não foi convidado para trabalhar em outro jornal.
Estilo marcante no rádio e na TV
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No começo dos anos 1980, fazia comentário diário no Guaíba Ao Vivo
/Arquivo pessoal Fernando Golgo/Divulgação/JC
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Quando a "música do assobio" tocava ao
longe, todos em Porto Alegre sabiam que Sergio Jockymann estava falando
no rádio. A trilha - Rossana, do filme Os sete homens de ouro
(1965) -, que marcava o comentário do jornalista na Rádio Guaíba é
lembrada até hoje pelo público. O rádio foi um grande catalisador da
criatividade de Jockymann.
Seu primeiro emprego, em 1949, foi na
Rádio Difusora, hoje Bandeirantes, como locutor e redator. Mas, cheio de
ideias, Jockymann não conseguia colocá-las em prática. Quando a Rádio
Guaíba foi criada, em 1957, Jockymann logo integrou a equipe e afinou-se
com o estilo sofisticado da rádio. "Na minha primeira década em rádio
eu fui posto na rua várias vezes, exatamente por sonhar com o tipo de
programação adotado pela Guaíba", refletiu em 1969.
Na Guaíba, Jockymann revelou-se um
redator e produtor prolífico, chegando a produzir cinco programas ao
mesmo tempo. Uma de suas realizações foi Aventuras no mundo do som, em que explorava todos os efeitos sonoros do rádio da época. Certa vez, reproduziu a experiência de Orson Welles e recriou A guerra dos mundos, de H. G. Wells.
Com a ascensão da Guaíba e as
modificações de mercado com a chegada da televisão, inaugurada em 1959, a
Farroupilha, antes líder, entrou em crise. Jockymann assumiria a
direção artística da rádio em 1963 sob condições adversas: não havia
mais dinheiro para manter a orquestra, tampouco o elenco de radioteatro.
Mas, com a ajuda de amigos como Renato Pereira e Eloy Terra, criou e
dirigiu vários humorísticos como Porto Alegria e Semanascope.
"Jockymann foi de uma geração particular
na história da comunicação no Rio Grande do Sul, de pessoas que tinham
um embasamento cultural diferenciado, de extrema criatividade, que
pegaram a transição do rádio-espetáculo ao rádio segmentado", analisa o
professor Luiz Artur Ferraretto, da Ufrgs. Para o humorista Renato
Pereira, Jockymann era mais que um amigo ou colega. "Ele era minha
referência profissional. O meu estilo tem muito dele", revela.
Em seu retorno à Guaíba, já no fim dos
anos 1960, a rádio já não tinha mais rádio teatro, agora estando mais
voltada ao jornalismo. Jockymann passou a fazer aquilo que o tornaria
mais célebre no rádio: a crônica diária sobre assuntos do cotidiano da
cidade, com trilha e bordão característicos.
Na televisão, também revelaria seu poder
criativo. Ajudou a elaborar os dois principais programas de TV dos anos
1970 no Rio Grande do Sul: Portovisão e Jornal do Almoço. "Os dois programas foram criados na sala da minha casa", revela Simone.
Jockymann ficaria mais tempo no Portovisão,
exibido pela TV Difusora a partir de 1974. Criou um estilo de
comentário que utilizava um recurso dramatúrgico: o silêncio. "Era muito
interessante. Ele falava uma coisa e ficava em silêncio", relembra a
jornalista Tânia Carvalho, primeira apresentadora do Jornal do Almoço e do Portovisão.
Antes de o Inter conquistar seu primeiro
Campeonato Brasileiro, em 1975, Jockymann prometeu que não diria uma só
palavra caso o time vencesse o Cruzeiro na final. O Inter venceu a
partida por 1 a 0. Na segunda-feira seguinte ao jogo, Jockymann cumpriu o
prometido: passou o comentário todo apenas sorrindo. Foi na TV que sua
torcida para o Internacional ficou mais evidente, mesmo que, na vida
pessoal, não fosse o "Colorado Delirante", personagem de suas crônicas.
"Ele gostava, mas não era fanático. Gostava de todo time que vestisse
vermelho", conta a filha Luelyn.
Quando a TV Guaíba foi inaugurada, em 1979, Jockymann passou a fazer parte da programação, com um comentário diário para o Guaíba Ao Vivo,
exibido à noite. Com a falência da Caldas Júnior, em 1984, não sobraram
muitos profissionais para tocar a emissora adiante e Jockymann assumiu a
direção da TV. Sem recursos, criou uma programação barata, com
programas comprados de outras emissoras, muitos filmes e a manutenção de
alguns programas ao vivo.
No rádio, ainda teria passagens pelas
rádios Pampa e Bandeirantes entre o fim dos anos 1980 e o começo dos
anos 1990. "Jockymann era desses nomes que levavam o público para onde
iam, não importava a emissora que fosse", afirma Ferraretto.
Dramaturgia: sucesso nos palcos e nas novelas
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Nos anos 1960, com a esposa Simone, que conta que ele não aceitou convites da Globo
Arquivo pessoal Sérgio Jockymann/Divulgação/JC
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Marcada pela comédia de costumes, a
dramaturgia de Sergio Jockymann fez sucesso junto ao público ao retratar
a vida da classe média. No teatro, começou com Caim (1955). O sucesso viria a partir de 1961 com a sátira política Boa tarde, Excelência, que alcançou 22 mil espectadores na Capital. Com Marido, matriz e filial (1966), Jockymann ganharia projeção no Rio de Janeiro e em São Paulo. Viriam ainda peças como Lá (1967), Se (1978) e Treze (1979).
"Ele era muito irônico e isso funciona
muito bem numa peça de teatro. Do ponto de vista de divertir e de ser
uma crônica de costumes do Brasil daquela época, suas peças eram
referências", avalia o professor e crítico de teatro do Jornal do Comércio,
Antonio Hohlfeldt. Para ele, o melhor trabalho de Jockymann é a inédita
Spiros Stragos, de 1977, premiada pelo antigo Serviço Nacional de
Teatro. "Era uma peça da melhor qualidade que fazia uma paródia do
[empresário] Aristóteles Onassis e uma emulação de uma tragédia grega",
analisa.
Na televisão, também envergaria pelas
comédias com foco na classe média. "Em suas histórias, apresentava
pessoas trabalhadoras, que lutam para viver e que gostariam de ter
melhores condições de vida", aponta o jornalista e pesquisador Fábio
Costa, autor de Novela: a obra aberta e seus problemas (Giostri, 2016). O primeiro êxito veio em 1970, com A Gordinha, na TV Tupi, com Nicette Bruno como a protagonista-título.
Sua novela mais reconhecida seria fruto da desorganização da Tupi. Em 1974, Ivani Ribeiro escrevia as primeiras semanas de O Machão, às 20h30min, quando a emissora a convocou para elaborar uma novela para as 19h. Só que Ivani já supervisionava outra novela, Os Inocentes, às 20h. Não seria possível uma mesma pessoa cuidar de três novelas. E lá foi ela escrever A Barba Azul para as 19h. Mas o que fazer com O Machão,
que estava começando? Convoca-se Jockymann, que assumiu a trama no
capítulo 43. Descasou personagens, mexeu em tudo e deu ritmo de seriado à
novela.
Perto do fim, Antônio Fagundes, que
interpretava o protagonista, assinou um contrato com a TV Globo e deixou
a emissora. Mas não foi problema, Jockymann deu um jeito e segurou as
pontas. O Machão ficou um ano e meio no ar, com boa
repercussão. Ainda seria convidado para trabalhar na Globo em pelo menos
três oportunidades e recusou todas. Na última, ajudaria em O Cravo e a Rosa, livre adaptação de O Machão,
em 2000. "A Globo queria que ele fosse consultor, mas ele só aceitaria
se fosse ele o autor, para refazer", conta a esposa Simone.
Jockymann gostava das novelas, mas a
necessidade de colocar capítulos diários no ar o angustiava. "Ele se
sentia muito pressionado. Escrevia uma novela inteira sozinho, sem poder
errar, porque ele escrevia com papel carbono atrás para ter uma cópia.
Assim que pôde, ele largou", diz a filha Luelyn.
Política: maconhódromo e eleição para deputado
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Jornalista e escritor com a filha Luelyn, no começo da década de 1970
/Arquivo pessoal Sérgio Jockymann/Divulgação/JC
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